quinta-feira, 10 de setembro de 2009

BIRD


Pássaro noturno sou

E venho protegê-la da noite

Do frio que o silêncio traz

Venho romper este silêncio

Com minha dor

Que se desfaz num canto

Contido, esquecido, parido

Pelo medo de continuar

E a certeza de partir

Pássaro diurno sol

Que surgi em tua vida

Ao sorrir da manhã

Passa como o vento

E como o tempo, pássaro

Sem deixar vestígio

Perde suas asas

E já não canta

Abriga-se na copa

Em meio às folhas

Molhadas pela chuva

Que insisti cair

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

TODA VEZ QUE VOCÊ SE VAI


Quando pensar em você
Pra lembrar o que é felicidade
Buscarei o teu melhor sorriso
E aquele instante me perdendo
No teu abraço do qual
Jamais esqueço
Talvez eu siga adiante
E encontre outro sol
No horizonte
Mas daquelas manhãs
Ao teu lado
Eu não tenho como
Esquecer
Quando eu sair por aquela porta
O mundo quem sabe lá fora
Seja outro
E eu também
Mas num canto escondido
Dentro de mim
Estará você
Com teu melhor sorriso
Dizendo-me bom dia
Quando a noite chegar

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

SOMENTE PARA OS SEUS OLHOS


Você nunca pode olhar nos meus olhos. Nunca pode tocar minhas mãos. Nunca pode aquecer com o seu corpo o frio perene de minh’alma. Mas você desperta comigo a cada manhã, passa comigo as horas dos dias que jamais passam. Enxuga minha lágrima que escondo de todos no canto de uma parede, no escuro de um bar. Toma minha descrença e a transforma em esperança cada vez que me chama pra uma conversa a sós. E eu nunca pude olhar nos seus olhos. Nunca pude descrever a emoção que sinto, cada vez que você, longe, me diz “Oi”. Nem a dor que me causa toda vez que você se vai.
Eu esperei durante muito tempo em minha vida pelas palavras que hoje você me diz. E você nunca olhou nos meus olhos. Mas no meu coração você já está. Ocupou ali um lugar que agora é todo seu e somente seu. Escritor é tudo assim, mesmo, tipo besta que se faz de forte, mas que se desmancha ao menor carinho, à menor demonstração de afeto que recebe.
Deus como eu queria encher mil páginas pra lhe dizer o que sinto neste momento. Mas as palavras fogem de pessoas como eu, que se acostumou a usá-las para provocar a mente e atingir o coração alheio na vã esperança de acrescentar reflexão e atitude na vida das pessoas. Quiça um instante de lazer e divertimento.
Eu não sei até onde vou. Não sei o quanto ainda posso. Não sei se as águas do reservatório da energia que movimenta a minha mente e me faz escrever estão por terminar. Não sei se tenho 6 anos, 6 meses, 6 dias. O remédio da revolta não faz mais efeito. Algo me diz que sim. Mas, à humanidade vou deixar escrito, e talvez seja a última coisa que o faça. Direi a todos que a única coisa de bom que a literatura me proporcionou nesta vida foi ter conhecido você... Adriana.
E talvez, para um sujeito como eu, isso seja o bastante. Seja tudo o que nesta vida eu possa conseguir.
Mas se for, tenha a certeza que estas palavras são: Somente para os seus olhos. Somente para os seus.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ÉQUISOFICIUS


Vença
Todos os seus medos
Vista
Os olhos de esperança
Caminhe,
Mesmo que descalço
Siga em frente
O vento sopra
Em todas as direções
Só há uma certeza
Esteja certo
Virá a manhã
E mesmo
Que a noite seja longa
Você irá adormecer
Ao se entregar nos braços
De quem sabe como
Descansar o teu coração
Repousar o teu espírito

Empunhar uma lança
Não o torna vencedor
Olhe-se no espelho
Busque no teu olhar
A verdade escondida
O caminho evitado
Dê-se uma chance
Ninguém pode fazê-lo
Por você que não seja
Você mesmo
É a dor que te consome
Que arranca as raízes
Que o vento leva
Para longe de você
Para perto do mar
Que tudo recebe
Em silêncio
Sem reclamar
O mar
Onde você se fez

Dedicado à Adriana L.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

CARTA AOS MISSIONÁRIOS


A única maneira
De se eliminar
A possibilidade de vingança
É aniquilar o inimigo
Não se estende a mão
Para aquele que
Um dia
Pode colocar tua face
De encontro ao chão
E se tudo é energia
O ódio é apenas
Uma face dela
Quando há brilho
Nos olhos
E sangue nas veias
Alguma coisa há
Dentro do coração
Que faz a mente
Voar longe
E o espírito
Bem alto
Do que você é feito?
De quê barro viestes?
Cerre os punhos
Desfira o golpe
É preciso derrubar
Os muros e os corpos
E libertar os espíritos
Esqueça os que prometem
A cura esperada
A terra prometida
Ignore os que sabem
Escrever com palavras
Eles desconhecem a dor
Não sabem qual o cheiro
Do ferimento que não fecha
Se pensas que aqui
Continuarás para sempre
Desistas
Isto não lhe pertence
É apenas uma roupa
Carcomida
E usada
E o que está à sua volta
Apenas ilusão
Que ao último olhar
Desfaz-se
Na poeira do tempo
Que é o nada

sábado, 13 de junho de 2009

MEA CULPA

Quem me conhece amiúde, quem lê os meus textos, imagina que sou destemido, ousado e, por vezes, senão sempre, arrogante. Não conhecem metade da reza. Sou tímido, inseguro e tenho medo terrível de tudo a minha volta. Cada olhar que me encontra pode ser um inimigo a me espreitar. Quando mais jovem, porque jovem sempre sou, porque assim é meu espírito, eu exorcizava meus demônios e espantava meus medos nos braços da noite, no acalento da brisa da manhã, borrifado de perfumes que não eram os meus, e sorvido por goles de delírio e prazer que não me pertenciam. Mas o trem da vida continua a seguir o seu destino e se a gente não pula fora sempre chega à próxima estação. Agora que escrevo estas linhas, estou linkado no youtube ouvindo (e não vendo) "Loves come quickly" do PSB. Noites e mais noites ao embalo desta música. E de outras. Ali, naquele mármore de indiferença, desprezo e revolta forjou-se o escritor, que escreve linhas como estas, na busca insana por espantar para longe de si todos os seus medos. E a dúvida cruel persiste. A um passo de distância da liberdade. Um movimento. E de repente tudo se desfaz, se desmancha e a vida se deforma e ganha contornos de Munch. E olhar de Cortazar. Faz frio e a noite chega. O medo é como chama ardente que envolve, domina e consome. Os sinos não irão tocar esta noite. Talvez o façam pela manhã. O copo se quebrou e o líquido é precioso demais para ser sorvido de maneira tão vulgar. Por isso talvez eu adormeça esta noite. Talvez. As roupas estão sobre a cama, a toalha no chão, o gato no telhado, a lauda, em branco, no carro da máquina de escrever, esperando... esperando a sintonia, o momento em que tudo conspira a favor, o momento em que se deflagra a revolta, que se faz a rebelião. Alguém me convenceu que bastariam palavras para a minha vingança. Há de pagar por isso.