quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

BOM DIA, MEDO


Eu poderia começar diferente
É Natal, o momento é propício
Falar de esperança e certeza
De alegria e sonhos
Mas o que isso tem a ver?
O que tem a ver comigo?
Se ele me persegue
Onde quer que eu vá
Se ao amanhecer
Eu caminho
Pela estrada deserta
Ele está ao meu lado
É o abismo
Que aos poucos se agiganta
Dentro de mim como
Monstro insaciável
É o escuro dos meus olhos
A sufocar a noite
O gelo do meu coração
Medo
Sem nome, sem rosto
Sem motivo
Acompanhado de sua dama
A solidão
Ele me faz ver
Tudo o que não tenho
Tudo o que não sou
E aponta-me o caminho
E mostra-me o tempo
Dentro de um arco Iris
Por onde me convenceu um dia
Eu pudesse seguir
Medo
Ancião de barbas e cabelos longos
Coberto de andrajos
Feridas expostas
Pés descalços
Olhar compenetrado
Um vulto na janela do quarto
A me olhar quando eu era criança
Imagem no espelho
Que eu encontrava na juventude
Todas as manhãs, todas as noites
Medo
Sem rosto, sem nome, sem motivo
A me seduzir, dia após dia
Noite adentro
Talvez me ame
E não viva sem mim

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O AMOR SEGUNDO LÁPIS

O amor tem lado?

O amor tem direção?

O amor tem rosto?

Nome?

Endereço?

O amor se faz?

Ou se desfaz?

É feito de papel?

Voz?

Sangue?

O amor tem privilégio?

O amor tem dono?

Traz saudade?

Leva lembranças?

As melhores, e as piores

O amor, o que deixa? – quando se vai...

Qual o nome do amor?

domingo, 22 de novembro de 2009

ADÁGIO


Eu vi a lua nascendo com a noite e me lembrei de você.

Vi as estrelas e me lembrei de meus sonhos

Porque estes também levam algum tempo pra se apagar

Embora já estejam mortos.

Eu caminhei pela longa avenida, naquela noite

Acompanhado pela música de Mahler

Que fala de perda e solidão

E me lembrei de você

E enquanto eu caminhava

Vi uma sombra apossar-se da lua

Passageira como a esperança

Que me representou a sua presença

Ainda que distante dos meus olhos

Longe de minhas mãos

Eu caminhei os últimos dias, os últimos anos

À procura da página final

Tomei um Lápis emprestado

Achando que ele pudesse me dar vida

Mas a sombra despediu-se da lua

E ocupou minha mente

E fez-me acreditar que na solidão a dor silencia

E no escuro a prisão inexiste

Eu segui caminhando pela longa avenida

Como o faço todos os dias, todas as manhãs

Como faço ao anoitecer

E da noite eu me despeço

E à lua eu digo até logo

Porque esse é o modo que encontrei

Pra não te esquecer

sábado, 21 de novembro de 2009

EXPEDIENTE DE ROTINA


É preciso amar e odiar. E acompanhar as mudanças, e conhecê-las bem, para poder refutá-las.
É preciso ter amigos e inimigos.
E mais do que plantar uma árvore é preciso se embrenhar na floresta.
E mais do que escrever um livro, é preciso deixar que a vida, pessoal e alheia, nos conte a sua história.
É preciso abandonar o certo, e deixar-se levar pelas ondas do mar em dúvidas
Esquecer as leis e fazer as escolhas.
Afinal, somos humanos. Ainda bem.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

MUITO ALÉM DO JARDIM


Todo aquele que escreve é um apaixonado.

Afinal, por que dar o melhor de si a quem jamais irá conhecê-lo

Por que desnudar-se para olhos alheios, possessos de cobiça

Que o desejam para se apoderarem do seu melhor sentimento

E sua única vontade, pra depois, de usá-lo, jogá-lo

No quintal imundo de uma consciência perdida

Por que imaginar que os olhos que te lêem

Querem entendê-lo, e assim, apaziguar

O tormento que carregas dentro de ti

Que te consome a cada instante

Em forma de palavras

Escritas

Malditas

Por quê?

Por que passar os dias a viver para os outros

E conceber um sonho que vai deixá-lo

Assim que abrires os olhos

Para o instante seguinte

Quando deitar o lápis

Querendo descansar

Imaginando-se convicto

Que cumpristes a missão

Quem és tu?

Pensas que és Deus?

E que todos aqueles olhos que te lêem

Acreditam nisto?

És um jardineiro!

Que sem plantas a cuidar

Sem flores a sorrir

Percorre a lembrança dos lírios e das gérberas,

Das orquídeas e violetas

E deixa-se sentar no gramado úmido

Num final de tarde como este

Esperando o pôr do sol

Que não demora a vir

O último

sábado, 31 de outubro de 2009

FAÇAMOS POESIA


Há uma grande diferença entre o que se vive e o que se escreve. E o que se escreve e se imagina viver. Abreviar a vida não é terminar o caminho. É apenas desviar do caminho. Há quem faça do Inferno poesia. Esse é o melhor retrato que se pode obter de tão nefasto lugar. E mesmo assim, não costuma ser dos mais agradáveis. Deixemos as dores às palavras. Porque elas, as palavras, sabem cuidar das dores melhor do que nós.

sábado, 3 de outubro de 2009

SEIS QUARTEIRÕES


Então a música para. A lembrança se dissipa. E a realidade toma para si o que imagina lhe pertencer. Não sabe, entretanto, a realidade que sonhar é bom em qualquer fase da vida a diferença é que aos 20 anos os sonhos são recheados de esperança.

Assim, Fausto caminha entre as mesas, arriscando, vez em quando, um olhar para trás; as mãos nos bolsos da calça, o paletó nos ombros.

No palco, os músicos conversam entre si. Alguns sorriem, outros verificam os instrumentos. O baterista levanta-se e, com a toalha em volta do pescoço, dirige-se para os camarins.

E Fausto continua caminhando, agora já próximo da portaria da boate. Num relance, percebe que o dia amanhece lá fora. As cortinas aos poucos são abertas pela senhora que cuida da limpeza, enquanto sua assistente varre o chão. No american bar, os garçons, satisfeitos prestam contas com a gerência.

Já na calçada Fausto olha para o céu, e verifica novamente que o dia veio recolher a noite, e os primeiros raios de sol daquela manhã ofuscam seus olhos claros e o faz caminhar cabisbaixo, sempre olhando para trás na vã esperança de que um táxi passe por aquela rua, em cujas calçadas ainda se acham os sacos de lixo esperando para serem recolhidos.

O quarto de pensão onde mora fica a seis quarteirões dali. E não fosse o desconforto do sapato novo ele percorreria com prazer àquela distância. Gostava de caminhar. Porque ia deixando pelo caminho as más lembranças.

Era domingo, e, provavelmente não chegaria a tempo de aproveitar o café da manhã da pensão. Mas Dona Eulália sempre lhe guardava uma xícara. Porque sabia retribuir os versos que Fausto escrevia de graça para que ela continuasse tentando trazer o amado Onofre de volta. Ainda que Fausto julgasse aquilo perda de tempo. Onofre não era dado à poesia, para ele, coisa de gente fresca. E talvez fosse mesmo. Coisa de gente fresca.

As mulheres gostavam. Algumas. Por isso Fausto tinha sempre algum verso na ponta da língua. Naquela noite não se ocupara de nenhum. Mas houve uma noite em que utilizara dois. Um falava de esperança. E o outro de despedida. Coisas que ele, sujeito dado à solidão e ao silêncio conhecia muito bem desde que a esposa se fora morar com os anjos.

Para Fausto, dali por diante, a noite passara a se chamar esperança e o dia despedida. Difícil, logo descobrira, era fazer esses dois se entenderem. Não havia entendimento. Porque sempre parecia faltar alguma coisa.

Tudo começava como tudo começa: um olhar. E durante a seleção de boleros a pergunta inevitável: “Concede-me esta dança Srta.?”.

Era esse o momento do qual se lembrava enquanto voltava para casa. O modo como Joyce, surpresa ante seu pedido, concedeu-lhe a honra de uma contra-dança. A maneira assustada como tentara em princípio, esquivar-se do olhar dele. Ela tinha os cabelos penteados para trás e presos num coque elegante à altura da nuca. De seu pescoço, vinha um perfume agradável, envolvente. Lembrava-se Fausto do quanto fora difícil resistir à vontade de soltar da cintura dela e subir a mão até as costas, então à mostra, como o busto tão delicado e perfeito, tão harmonioso e excitante, não menos que o olhar de Joyce, agora finalmente voltado para o seu.

A primeira vez juntos. A primeira dança. E instantes depois, o primeiro Martini e a primeira conversa.

Joyce tinha bem menos idade que ele. Talvez 11 ou 12 anos menos, talvez 15. Fausto já tinha alguns cabelos brancos e várias obturações. Ela não. Ele tinha uma história para lhe contar. Triste. Mas verdadeira. Ela tinha aspirações e desejos inconfessáveis para uma senhorita que todos julgavam de boa índole. Sentimentos para os quais desejava dar conteúdo e forma. Joyce tinha medo de não ser possível. Fausto tinha medo que acontecesse tudo de novo.

Encontraram-se outras vezes. Em outros lugares e outras ocasiões.

Aconteceu que a ausência se fez sentir e a saudade a invadir o peito. E a mente. A ponto de quase destruí-la.

Naquela noite, em que se lembrava desses acontecimentos Fausto percebeu que entre seus pertences tudo o que trazia eram lembranças de uma história triste. E um desejo de esquecê-la. Sepultá-la no mais fundo da sua consciência. Mas teria de fazer concessões. Por exemplo: Sonhar. E um homem na sua idade e com as marcas que trazia no corpo e no coração não podia mais sonhar. Teria de viver cada dia um dia, caminhando sempre adiante. Agora, sem olhar para trás. Ao encontro do seu destino. Onde tinha certeza de que não iria encontrar a jovem que um dia amou em silêncio.