.jpg)
Então a música para. A lembrança se dissipa. E a realidade toma para si o que imagina lhe pertencer. Não sabe, entretanto, a realidade que sonhar é bom em qualquer fase da vida a diferença é que aos 20 anos os sonhos são recheados de esperança.
Assim, Fausto caminha entre as mesas, arriscando, vez em quando, um olhar para trás; as mãos nos bolsos da calça, o paletó nos ombros.
No palco, os músicos conversam entre si. Alguns sorriem, outros verificam os instrumentos. O baterista levanta-se e, com a toalha em volta do pescoço, dirige-se para os camarins.
E Fausto continua caminhando, agora já próximo da portaria da boate. Num relance, percebe que o dia amanhece lá fora. As cortinas aos poucos são abertas pela senhora que cuida da limpeza, enquanto sua assistente varre o chão. No american bar, os garçons, satisfeitos prestam contas com a gerência.
Já na calçada Fausto olha para o céu, e verifica novamente que o dia veio recolher a noite, e os primeiros raios de sol daquela manhã ofuscam seus olhos claros e o faz caminhar cabisbaixo, sempre olhando para trás na vã esperança de que um táxi passe por aquela rua, em cujas calçadas ainda se acham os sacos de lixo esperando para serem recolhidos.
O quarto de pensão onde mora fica a seis quarteirões dali. E não fosse o desconforto do sapato novo ele percorreria com prazer àquela distância. Gostava de caminhar. Porque ia deixando pelo caminho as más lembranças.
Era domingo, e, provavelmente não chegaria a tempo de aproveitar o café da manhã da pensão. Mas Dona Eulália sempre lhe guardava uma xícara. Porque sabia retribuir os versos que Fausto escrevia de graça para que ela continuasse tentando trazer o amado Onofre de volta. Ainda que Fausto julgasse aquilo perda de tempo. Onofre não era dado à poesia, para ele, coisa de gente fresca. E talvez fosse mesmo. Coisa de gente fresca.
As mulheres gostavam. Algumas. Por isso Fausto tinha sempre algum verso na ponta da língua. Naquela noite não se ocupara de nenhum. Mas houve uma noite em que utilizara dois. Um falava de esperança. E o outro de despedida. Coisas que ele, sujeito dado à solidão e ao silêncio conhecia muito bem desde que a esposa se fora morar com os anjos.
Para Fausto, dali por diante, a noite passara a se chamar esperança e o dia despedida. Difícil, logo descobrira, era fazer esses dois se entenderem. Não havia entendimento. Porque sempre parecia faltar alguma coisa.
Tudo começava como tudo começa: um olhar. E durante a seleção de boleros a pergunta inevitável: “Concede-me esta dança Srta.?”.
Era esse o momento do qual se lembrava enquanto voltava para casa. O modo como Joyce, surpresa ante seu pedido, concedeu-lhe a honra de uma contra-dança. A maneira assustada como tentara em princípio, esquivar-se do olhar dele. Ela tinha os cabelos penteados para trás e presos num coque elegante à altura da nuca. De seu pescoço, vinha um perfume agradável, envolvente. Lembrava-se Fausto do quanto fora difícil resistir à vontade de soltar da cintura dela e subir a mão até as costas, então à mostra, como o busto tão delicado e perfeito, tão harmonioso e excitante, não menos que o olhar de Joyce, agora finalmente voltado para o seu.
A primeira vez juntos. A primeira dança. E instantes depois, o primeiro Martini e a primeira conversa.
Joyce tinha bem menos idade que ele. Talvez 11 ou 12 anos menos, talvez 15. Fausto já tinha alguns cabelos brancos e várias obturações. Ela não. Ele tinha uma história para lhe contar. Triste. Mas verdadeira. Ela tinha aspirações e desejos inconfessáveis para uma senhorita que todos julgavam de boa índole. Sentimentos para os quais desejava dar conteúdo e forma. Joyce tinha medo de não ser possível. Fausto tinha medo que acontecesse tudo de novo.
Encontraram-se outras vezes. Em outros lugares e outras ocasiões.
Aconteceu que a ausência se fez sentir e a saudade a invadir o peito. E a mente. A ponto de quase destruí-la.
Naquela noite, em que se lembrava desses acontecimentos Fausto percebeu que entre seus pertences tudo o que trazia eram lembranças de uma história triste. E um desejo de esquecê-la. Sepultá-la no mais fundo da sua consciência. Mas teria de fazer concessões. Por exemplo: Sonhar. E um homem na sua idade e com as marcas que trazia no corpo e no coração não podia mais sonhar. Teria de viver cada dia um dia, caminhando sempre adiante. Agora, sem olhar para trás. Ao encontro do seu destino. Onde tinha certeza de que não iria encontrar a jovem que um dia amou em silêncio.